Satisfeitíssimo. Eis a resposta que proprietários de automóveis elétricos têm me dado quando lhes pergunto se estão satisfeitos com o investimento. A conclusão desta minha investigação rudimentar vai ao encontro do estudo recentemente publicado pela JD Power indicando que 96% dos proprietários de veículos elétricos considerariam comprar ou alugar outro elétrico da próxima vez que forem trocar de carro (isso nos USA).
Natural que uma mudança cultural de tal relevância – a adoção de veículos elétricos - encontre resistências: inúmeros setores da economia, notadamente montadoras, concessionárias, postos de combustíveis e oficinas mecânicas, resultarão diretamente afetados, e a velocidade da transição ao novo modal demanda adaptações que nem todo empresário consegue acompanhar. O problema não é a oposição à mudança, mas a desonestidade intelectual que tomou conta do debate, desonestidade amplificada pela má-fé de campos políticos especializados em negar os fatos em prol da ideologia.
Setores afetados pela transição têm o direito de serem ouvidos em relação às políticas de fomento em discussão, mas seus argumentos devem ter por base fatos concretos e não opiniões vacuidosas que acabam por rejeitar, as mais das vezes por teimosia inconsequente, uma evolução tecnológica interessante à sociedade, e isso tanto do ponto de vista ambiental quanto econômico.
Da questão ambiental: veículos elétricos não emitem CO₂ diretamente, de forma que, em países com matrizes energéticas renováveis, sua vantagem sobre os veículos a combustão soa evidente; veículos elétricos são mais silenciosos, a reduzir a poluição sonora nas cidades; embora a pegada de carbono na produção de um veículo elétrico seja maior do que a de um veículo a combustão, tal diferença acaba invertida em poucos anos de uso; a reciclagem de baterias permanece cara, mas a tecnologia tem avançado rapidamente neste quesito, sem falar na tendência de reaproveitamento dos módulos para o armazenamento estacionário de energia; estudos abalizados e revisões científicas periódicas concluem que, durante o ciclo de vida completo, os veículos elétricos emitem até 70% menos gases de efeito estufa do que os veículos a combustão.
Da questão econômica: na maioria dos países, a eletricidade é significativamente mais barata do que a gasolina ou o etanol (considerado o quilômetro rodado), razão pela qual os veículos elétricos são muito mais econômicos do que os veículos a combustão; veículos elétricos têm muito menos peças móveis, resultando numa manutenção até 40% mais barata do que em veículos a combustão, em menos quebras durante o uso e num maior espaço interno; eventual depreciação é compensada pela economia de combustível (acentuada pela extensão da garantia conferida às baterias e pela instalação de painéis solares residenciais); as desvantagens a serem superadas pelos veículos elétricos dizem respeito à baixa autonomia das baterias e à falta de infraestrutura de abastecimento, desvantagens, todavia, mitigadas em se tratando de uso urbano.
O tema voltou à baila quando do lançamento da Ferrari Luce, superesportivo construído com a proposta de agregar a experiência da direção de alta performance à motorização elétrica, sem prejuízo das inovações tecnológicas e do luxo que definem a montadora. Nem bem o pano caiu e o produto restou tragado pelo charlatanismo ideológico. Claro que o aspecto econômico perde força em se tratando de carros esportivos – seus proprietários não costumam lá ter muita preocupação com o preço do combustível ou das revisões periódicas – mas há um nicho comercial em crescimento nesta área e é natural que a Ferrari busque preenchê-lo (a omissão abre espaço à concorrência).
Okay, sejamos intelectualmente honestos: o mercado de veículos elétricos encontra-se ainda em fase de adaptação e há certas nuances que merecem atenção (como o auxílio aos seguimentos econômicos prejudicados e a diversificação da cadeia de suprimentos); mas tal debate deve, repito, amparar-se em evidências científicas, não em ideologias focadas em desmerecer a ciência e manipular as redes sociais.
O certo é que, ao final do busílis, prevalecerá a opinião do consumidor mediano, aquele que, em seu ramerrame frugal, nada mais almeja senão ir dum lugar ao outro da forma mais rápida, econômica e confortável possível, quesitos que, na falta de transporte público eficiente e ciclovias minimamente seguras, os veículos elétricos parecem atender com sobra.
PS: Adote a cultura de questionar sua inteligência artificial sobre a honestidade intelectual dos artigos que você recebe.