O Hedonista Falido

Água com açúcar

Pedro e Lúcia, de Romain Rolland, narra a história de um amor adolescente em tempos de guerra. Novela ligeira, para ler numa sentada, com fortes traços líricos; uma prosa poética ao estilo água com açúcar, diria minha avó, e no que toca a mim, assaz piegas. 

Quanto aos temas, vemos o anticlericalismo, o antipatriotismo e o antidogmatismo, a evidenciar uma desconfiança generalizada dos jovens em relação aos velhos e seus ideários beligerantes; natural que assim seja: os que irão para a frente de batalha enfrentar uma morte mais que possível, provável, são os jovens, muitos dos quais conhecerão os horrores da tragédia antes de viverem as delícias do romance. Dada a incerteza em relação ao futuro e as limitações impostas pelo esforço de guerra, a saída é saborear as pequenas alegrias do presente, os brindes do cotidiano, os amores nômades; e entregar-se à liberdade de pensamento e à imaginação até quando possível for.

Comprei este exemplar num alfarrabista. O antigo proprietário fez a gentileza de transcrever o soneto Duas Almas, de Alceu Wamosy, nas folhas de guarda:

 

Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada,
entra, e, sob este teto encontrarás carinho:
Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,
vives sozinha sempre, e nunca foste amada...

A neve anda a branquear, lividamente, a estrada,
e a minha alcova tem a tepidez de um ninho.
Entra, ao menos até que as curvas do caminho
se banhem no esplendor nascente da alvorada.

E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,
essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
podes partir de novo, ó nômade formosa!


Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:
Há de ficar comigo uma saudade tua ...
Hás de levar contigo uma saudade minha ...

 

Curioso o destino deste poeta simbolista: combatente na revolução gaúcha de 1923, restou ferido; moribundo, casou-se in extremis com sua amada, final que bem rivaliza com o da novelinha de Rolland.

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