Quem diria que nesse 2026 haveria tanta pancadaria. Mal me levanto e me vem logo outra rasteira. Sou um neófito numa roda de capoeira. Não sei bem se é o caso de começar a reagir ou aprender a cair. Mas não vou reclamar: há gente em pior estado, ainda que não saiba.
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A leitura, como efeito colateral, rendeu bem. Vejamos as vítimas:
O Protocolo Caos, de José Rodrigues dos Santos. A tese de que Donald Trump seria um ativo russo com a missão de enfraquecer e desestabilizar o Ocidente revela-se convincente neste romance jornalístico e ganha, a cada dia, novas evidências: não seria a Rússia a maior beneficiada com a novel Guerra do Irã? Cerca-se a narrativa do contexto de desinformação como estratégia de divisão social, materializada em movimentos intolerantes e radicalismos de toda sorte, identificáveis em vários cantos do mundo e contagiando amplo espectro ideológico. Temos também o problema dos algoritmos como amplificadores da desinformação e das deep fakes, tecnologias novas para a velha conhecida agitprop. Do meu ponto de vista, o fundamento teórico que inflama a esgotosfera nada mais representa senão uma historinha, uma estratégia diversionista para mascarar a conduta criminosa do grupo atualmente no poder na Rússia e de suas células espalhadas pelo planeta. Das referências factuais havidas no romance, destacam-se o escândalo da Cambridge Analytica no referendo do Brexit, os massacres étnicos em Mianmar e as relações de Donald Trump com empresários russos, incluindo o emblemático episódio do golden shower. É fato que os jornalistas costumam escrever bem e José Rodrigues dos Santos corrobora essa percepção: o livro prende desde o início, tem um bom ritmo e a resolução da trama desperta no leitor uma salutar sensação de surpresa. Seja como for, os EUA não conseguem vencer o Irã e a Rússia não consegue vencer a Ucrânia: a fantasia neofascista de Dugin deu de cara com a realidade.
Faustino, de Donaldo Schüler, inspira-se no clássico Fausto, de Goethe, numa dimensão bem menos épica, há que se reconhecer. O autos nos dá a conhecer as transformações de um homem que, insatisfeito com o mundo, abraça e abandona fantasias em busca de algo que não consegue definir. Tivesse a empreitada resultado frutífera, testemunharíamos a biografia de um virtuoso polímata. Não é esse o caso, todavia. Ao narrar as inconstâncias de seu marido, a esposa acaba por revelar também a sua história, ou melhor, sua não história, uma vez que agrega a insensatez da sua submissão à insensatez patológica do companheiro: da transição do cotidiano ao mitológico, do realismo ao romantismo, acompanhamos a confissão de um duplo vazio existencial, o dele por ação improvisada, as mais das vezes imprevidente, o dela por inação vocacionada. A narrativa é curta, dessas que cabem numa conversa de comadres num domingo qualquer; o autor fez de uma fofoca uma novela interessante, recheada de referências a amigos escritores e de sagazes reflexões sobre a vida. Extrai-se: “Na escola não se faz outra coisa do que corrigir o erro. Ninguém o examina competentemente para auscultar a misteriosa verdade que o fez eclodir”.
O Púcaro Búlgaro, de Campos de Carvalho, publicado nos idos de 1964, encerra o típico humor nonsense com pitadas de surrealismo e divertidos jogos de linguagem, tendo por mote uma incursão científica voltada a confirmar a existência do suposto reino da Bulgária. A rigor, é um bom livro sobre um delicioso nada que espreme nas entrelinhas sutis críticas sociais e políticas. Extrai-se: "O que antes era consciência hoje se chama transístor. Você deixa que os outros pensem por você e decidam sobre o que você deve fazer, o que é justamente o que o governo quer".
O Homem que Calculava, de Malba Tahan. Não vos deixeis influenciar pelo pseudônimo: o autor é brasileiro da gema. Sucesso absoluto com o público secundarista, a obra encontra-se em sua 113ª edição; tem por objetivo divulgar a matemática, com o protagonista a enfrentar, para deleite de príncipes e plebeus, cálculos assaz intrincados. O autor ambienta o romance no universo árabe-muçulmano medieval, bem ao estilo Mil e uma Noites; a narrativa invoca uma moral cortês ao meu ver forçada e ressalta demasiadamente a conotação esotérica que acompanhou a matemática ao longo da história; a par de certos exageros estilísticos e de sua afetação religiosa, a obra cumpre seu papel pedagógico, principalmente porque o calculista se dá bem no final. Vale observar que o livro é dividido em 34 capítulos, sendo que da soma dos algarismos 3 + 4 resulta 7, número cujo significado o livro insiste em esclarecer.
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Com o perdão da palavra: semicúpio.
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O berço esplêndido em que o Brasil se encontra eternamente deitado é na verdade uma cova rasa numa restinga degradada.
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Milei manda expulsar estrangeiros que ofenderem a Argentina, decisão que nada mais faz senão corroborar o notório narcisismo portenho. Dizem por lá que, quando relâmpagos brilham sobre Buenos Aires, são os deuses a tirar fotos dos argentinos. Quão especial é a Argentina, nação injustamente situada na América Latina ...
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Eis o suprassumo da essência resumida dos meus dias, o que se pode tirar de útil ou, ao limite, motivar algum sorriso discreto.