O Hedonista Falido

A fortaleza da biblioteca

Em tempos hostis, há que se buscar refúgio na fortaleza da biblioteca, armar-se de ficção para enfrentar a realidade, apelar ao passado para afrontar o presente. Eis o resultado do claustro.

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Minha querida Sputnik (Haruki Murakami). Referências ocidentais, muitas delas, e citações que demonstram sólida cultura universal. Amores platônicos. Lesbianismo não ganha centralidade. Início dos anos 1990: carta, cartão telefônico, fax, secretária eletrônica, PowerBook, sem internet nem smartphones. O mundo oficial e o mundo interior. Vários narradores com vozes bem delimitadas (a protagonista parece escrever melhor do que o narrador principal). Em dado momento, o narrador afirma que “só iria compreender isso mais tarde”, mas não resolve esse suspense (ao menos não identifiquei a resolução). Colho: “E que tipo de experiência pode ter uma escritora, se ela não sente paixão? Seria como um mestre-cuca sem apetite”.

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A lição de Ondina (Emilio Rodrigué). Uma mistura de manual de psicanálise com autobiografia e autoanálise. Escrita peculiar, inteligente, ótimas tiradas, bom humor. Laboratórios psicológicos. Luto. Relacionamento aberto. Humanos resistenciais. Jubilados da vida. O pragmatismo induz à indiferença, como se as decisões não tivessem consequências. O pragmatismo é inconsequente. Colho: “Os ciúmes, no seu desaforo paranoico, são falsos desejos, contraprodutos do amor”.

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Olho no céu (Philip K. Dick). Tomei-o por ficção científica, mas na verdade é um suspense psicológico. Enredo criativo. Divertido.

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Bambino a Roma (Chico Buarque). Ficção autobiográfica. Lê-se numa sentada.

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O Herege de Soana (Gerhart Hauptmann). Naturalismo. Conflito entre a vocação sacerdotal e a tentação carnal. Natureza: liberdade, felicidade, paz. Tema sensível: incesto. Narrador refere-se a si mesmo na terceira pessoa. Prosa exageradamente poética. Colho: “E aqui tive uma intuição fugaz e incompleta de todos os mistérios. O mistério da negra fecundação no solo verde, da nacarada volúpia, de êxtases e delíquios, do segredo dos grãos amarelos do milho, de todos os frutos, de tudo que intumesce, e, mais do que tudo, de todas as cores”.

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Colas Breugnon (Romain Rolland). À velhice não chega quem quer. Um ano na vida do protagonista. Rir de si mesmo. Ironias. Resignação. Amizade. Tolerância. Otimismo. Saborear a vida. Contemplação. Liberalismo: viva e deixe viver. Ateísmo. Uma pitada de naturalismo. Resiliência. Sagacidade. Prosa poética. Guerras religiosas na França. Colho: “E não sou homem de me nutrir muito tempo com o suco do pensamento e a sombra dos pratos de que não comi”.

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Homens e algas (Othon D'Eça). Escritor aqui da terra. O livro reúne contos focados nas poucas alegrias e nos muitos sofrimentos dos pescadores da região. Deixai toda a esperança, vós que pescais.

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Estreou há pouco um canal no YouTube em que escritores comentam seus clássicos preferidos: Rebind Classics

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