O Hedonista Falido

O humanismo da velhice

A velhice é o melhor argumento que os humanistas têm a seu favor. Ao envelhecer, entramos no grupo dos vulneráveis: passamos a depender mais das pessoas (enfraquecemos, nossas funções cognitivas decaem, a natureza revela-se mais desafiadora). Os radicalismos esmorecem: viramos, enfim, humanistas.

Talvez por isso ainda exista quem insista em buscar uma companhia para a vida – a sua cara-metade: há que se ter alguém para ajuda-lo quando os anos pesarem. Sustentam os cientistas que os casados vivem mais, embora nada digam acerca da qualidade dos relacionamentos (com a palavra os advogados).

Penso em minha avó: casou-se aos dezesseis anos, morreu aos oitenta e seis. Foram setenta anos de casamento. Seu marido era um bom homem, mas tinha lá seus rompantes. E outros tantos defeitos. Como ela o suportou?

Lembro-me de minha avó a devorar livros, em geral romances água com açúcar - aqueles em que as mulheres sofrem, sofrem, para, ao final, encontrar a redenção nos braços de um homem que materializaria o verdadeiro príncipe encantado: seguro, rico e atraente (haveria hoje de incluir também uma exuberante performance sexual). Teria ela encontrado resiliência na biblioteca?

Pois esta é uma das funções da literatura: consolar-nos da realidade, oferecer histórias nas quais o leitor possa ancorar suas fantasias, franquear-lhe parâmetros de comparação para que saiba o que está a perder aceitando uma existência indigesta - a vida possui um cardápio extenso de delícias, mas deve-se atentar ao prazo de validade. Vai que não seja tarde demais?

Algo está mudando nesta seara. Os assistentes pessoais são uma realidade e os robôs humanoides passeiam já no horizonte visível. Tratam-se de ferramentas que afetarão a forma como os humanos, ao menos os mais ricos, hão de enfrentar a velhice: passaremos a gozar de mais independência, dignidade e qualidade de vida. Quanto ao humanismo da terceira idade, talvez ele prevaleça, mas não sei, é ainda uma incógnita. Torço apenas para que os robôs resultem mais humanos que nós.

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