Umberto Eco, em seu Baudolino, renova seus temas preferidos: a questão da verdade (mentira) e da autenticidade (fraude). Inicia referenciando a metáfora do palimpsesto, assaz conhecida dos estudantes de teoria literária (nenhum texto é integralmente autêntico: somos todos tributários do conhecimento passado).
O autor apropria-se da história e das lendas medievais e as retoca com o pincel da falsidade (quase sempre a serviço do poder e da religião, tal como ocorre ainda hoje). Ao longo dos séculos, a humanidade abandonou a maior parte destas fantasias, mas, por alguma razão, entendeu por bem institucionalizar outras (tão inverossímeis quanto). Eis um dos muitos pontos do romance que suscitam desconfortáveis reflexões.
Baudolino acreditava nas mentiras que inventava? Tratar-se-ia de um mitomaníaco? Ou apenas ecoaria uma cultura que favorecia o esoterismo? Suas intenções seriam egoísticas, voltadas a tirar partido das situações, ou fruto de uma ingenuidade pueril? O certo é que suas histórias misturavam elementos lendários com fatos verídicos (ainda que exagerados), resultando em uma amálgama difícil de definir (mas conveniente a quem quisesse trabalhar com ela); e quanto mais evoluíam seu conhecimento e sua experiência de vida, mais complexas (e intrincadas) suas lorotas ficavam (vemos figuras míticas referenciarem um outro e desconhecido universo simbólico, gerando uma espécie de palimpsesto de superstições ou um relicário de absurdos, um absurdário). De tanto interagir com suas fábulas, Baudolino acaba por enfrentar dificuldades para reconhecer a verdade, a ponto de, em seu clímax, ela lhe ser revelada por um cego.
Em dado momento, Baudolino reconhece: “Ainda não compreendera que, imaginando outros mundos, acabamos por mudar também este nosso”.
Enfrentar esse romance com um smartphone à mão nos propicia ultrapassar os limites diegéticos: consultando os informativos online, podemos explorar as fontes que teriam inspirado o autor, dentre outras, as aventuras de Pero da Covilhã em busca de Preste João, a poesia dos goliardos, as cruzadas, a exploração das relíquias cristãs, a história do Império Bizantino, a disputa entre o poder papal e o poder secular, in casu, com o imperador Frederico Barbarossa (ponto em que o autor aproveita para inserir o tumultuado surgimento de sua cidade natal).
Vale destacar ainda as inúmeras discussões filosóficas (as disputationes) que permeiam o caminho dos personagens (incluindo debates entre as diferentes vertentes cristãs que disputavam espaço àquele tempo) e os monólogos que intercalavam argumentos teológicos com a experiência comum (dar idêntico tratamento a mitos religiosos e mundanos não deixa de ser audacioso), franqueando ao leitor um panorama interessante da intelectualidade europeia no período escolástico (há espaço também ao nonsense, quando da mistureba advém algo tão abstrato que lembra as picaretagens semânticas dos desconstrutivistas).
Acredito que tenha sido Carl Sagan quem destacou a necessidade de, em dado momento, desiludirmos as crianças quanto aos contos de fadas, pois não faz bem à sociedade que adultos continuem a acreditar em fantasias; e, no entanto, elas, as fantasias, continuam tão populares como nunca, incutindo medo, inspirando conspirações perniciosas e explorando a ingenuidade do povo, que, em casos mais graves, acaba por dedicar sua vida (e sua morte) a uma ilusão obscurantista.